Fique parado em frente ao portão de ferro de minha casa por uns minutos. Era como se tudo que eu tinha feito até então foi em um estado de sonambulismo, e só então eu tinha acordado. Esfregava meu rosto constantemente para pensar. Quando finalmente saí daquela casa consegui raciocinar. Precisava achar um lugar seguro, qualquer lugar, encontrar alguém que me ajude, alguém vivo, uma ajuda.
Aconteceu num dia comum, num lugar qualquer. Pessoas, simples pessoas, começaram a se atacar, ataques violentos e apavorantes. Não sei bem ao certo como tudo começou, mas de acordo com meios de comunicação que ainda funcionavam, os ataques iniciaram-se na América do Norte, claro que não tenho absoluta certeza, e posso estar dando uma informação errada para vocês, mas isso é o que eu ouvi. Algo estava transformando as pessoas, deixando-as mais agressivas, mais perigosas, mais assustadoras, gente se matando pelas cidades, num cenário que deixaria qualquer um entrar em desespero. Nem as ruas, nem as próprias casas, nenhum lugar parecia ser seguro. É estranho afirmar que tudo se assemelhava aos filmes de terror, mas era real. O sangue, o medo, tudo era real. Cientistas diziam ser algum tipo de vírus da raiva transmutado ou algo do gênero, já as igrejas diziam ser a punição divina de Deus sobre os pecadores. É engraçado como até em um momento como esse, religião e ciência disputam as certezas do mundo... Pobres coitados. De uma maneira ou outra, não importa quem está certo, o importante é que aconteceu, e não tinha como voltar atrás, não agora, porque “eles” estão por ai, já estão vivos. Se tudo isso for novidade para você, com certeza está curioso para saber sobre “eles”, não é? Bom, primeiro de tudo, prefiro os chamar de “infectados”, é um nome mais direto do que eles realmente são, pessoas doentes, infectadas por um vírus maligno, também não chamaria eles de zumbis, pois me parece ser uma piada por algum motivo. O mais importante no final das coisas era que qualquer um que for pego por essa praga nunca, eu disse nunca, será o mesmo que antes, essa pessoa se transformará em algo agressivo e que fará de tudo para aniquilar qualquer humano que vê pela frente. Uma curiosidade é que essa pessoa, por nossa sorte, perde uma capacidade significativa de sua inteligência, fazendo-o ser literalmente um animal irracional agressivo movido pelo instinto de comer e proliferar sua espécie. Contato físico excessivo, como mordidas e arranhões, são passe certo para se juntar a eles em um exercito que parece ter saído do inferno. De qualquer maneira, vamos acabar com essa discrição cansativa, e prosseguiremos. Depois dos acontecimentos passados, eu me via parado na frente de minha casa, chegando lá quase como um sonâmbulo. Por um pequeno momento esfreguei ainda mais meus olhos e tentei me recordar do que tinha realmente feito. Há menos de 24 horas, fui obrigado a silenciar, para não ser obrigado a escrever a outra palavra, as pessoas que cuidaram de mim a vida inteira. Esse, meus amigos, é o momento que separou as crianças dos homens nesse mundo. Como já disse, quando alguém é mordido, essas pessoas vira um infectado, e não tem volta. Com esse pensamento eu acertei a cabeça dos meus amados tios, fui obrigado, era o que eu devia fazer, e fiz. Lembro de olhar bem as ruas em volta, as calçadas e as casa, tudo vazio. Você já saiu de casa em um dia de domingo, principalmente em uma cidade pequena? Já andou em ruas vazias de manhã, imaginando estar sozinho na cidade? Já eu tinha certeza disso, mas o pior era pensar que tinha algo a espreita. Andava com passos longos pela rua, e cada pisada no chão criava-se o único som aparente, meus olhos tremiam para todos os lados. Será que todos se foram? Era o que eu queria acreditar. Até aquele momento eu não estava completamente perdido, não ainda. Parte de minha mente ainda esta sã, eu ainda conseguia pensar, sentir, mesmo com a dor da perda, eu já havia chorado e vomitado o suficiente, meu corpo conseguia andar, e conseguia raciocinar... Por enquanto. A partir daqui meus caros leitores, posso afirmar que foi o inicio da “quase” perda da minha consciência como um ser humano. Ao andar por alguns minutos, nenhum deles apareceu, em nenhum momento teve-se uma ameaça disso, coisa que foi me tranqüilizando aos poucos, mas então, quando estava próximo a uma esquina, ouve-se um barulho. Era um barulho pequeno, quase como um pedaço de metal ou vidro caindo no chão, mas minha respiração parou. Por um segundo criou-se um equilíbrio de silencio, onde eu parecia ter criado raízes dentro do chão, meu corpo tremia, e suor descia pelo meu rosto. Engoli um seco desconfortável, e aos poucos arrastei meus pés até a parede da esquina, olhando com metade da cabeça para a rua... Nada. Mexi meus olhos analisando tudo, e não vi nenhum deles. Por um momento, cheguei a suspirar de tranqüilidade, foi então que observei que, em frente a uma das casas, havia um carro estacionado com metade dele em cima da calçada. Os leitores devem pensar o porquê deu não ter pegado qualquer tipo de veículo até agora, nenhum carro, nenhuma moto, nem nada. Não é por não saber dirigir, isso eu sabia desde a adolescência, mas nunca tirei carteira, algo que acho que a policia não deve mais se importar numa situação atual do mundo. O caso era que a maioria das pessoas com carros devem ter usado o primeiro automóvel a frente, então grande parte dos carros estaria em estradas, ou no máximo congestionando o centro e a saída da cidade, e já que meu bairro era afastado de ambos, não vejo porque alguém dirigiria para cá, e isso causou o cenário vazio que já descrevi, sem pessoas, carros, ou infectados. Ao olhar o Pálio cinza parado bem a minha frente, pensei por um segundo que podia ser uma boa idéia tentar no mínimo ver se alguém deixou a chave na ignição, e com sorte eu possa no mínimo chegar até o inicio de um possível congestionamento, e continuar a pé. O que esta por vir, é uma das situações mais sufocantes que já tinha enfrentado até então, mas que não hesito em escrever. Ao me aproximar do carro, pude ver algo se mexendo ao fundo da rua, um vulto negro se movendo devagar entre uma calçada e outra. Por um segundo, nem eu sei o porquê, tive a esperança de ter encontrado alguém como eu, um pobre coitado deixado para morrer em uma cidade condenada. Mas então, seus movimentos lentos, quase tropeçando em si mesmo me fizeram gelar e escorregar instintivamente para trás do carro, ficando agachado com apenas um pedaço do olho de fora, observando o que eu acreditava ser um perigo. Por aquele momento lembro de que minhas pernas tremiam tanto que não conseguia ficar agachado, ajoelhando com uma perna para dar apoio ao meu corpo que vacilava muito, um medo subiu pela minha espinha, enquanto mais suor descia pela minha face. Mas, ele esta longe, pensei naquele momento, se eu for rápido e cuidadoso posso entrar no carro sem ele perceber, e se ele estiver trancado dou meia voltar e vou embora. Pensamentos que me salvaram de paralisar-me de medo, mas só me condenaram ao fundo do poço. Fui andando agachado pelo lado do carro, escorregando minha mão pela porta direita, tentando não fazer nenhum barulho sequer. Meus olhos se mantinham fixados no vulto no final da rua, enquanto eu me arrastava para o que parecia ser minha tranqüilidade temporária. Foi então que eu ouvi um gemido, um simples gemido. Como ainda não tirava os olhos do infectado no final da rua, parecia até que podia ouvi-lo, era isso que eu pensava, mas estava errado. Com uma súbita e indesejável surpresa, algo me agarrou pela perna, me fazendo soltar um grito de susto e cair de costas no chão. A mão saia de baixo do carro, e dele surgia um rosto deformado, com a pele decomposta, mostrando carne viva por baixo de o que aparentava uma casca, os olhos estrábicos, que não pareciam olhar para nenhuma direção. Literalmente uma visão do inferno. A criatura estava presa debaixo do carro, com a perna esquerda esmagada pela roda esquerda dianteira, podendo-se ouvir os ossos se quebrando a cada movimento feito pela criatura. Como não o percebi?! Como pude ser tão burro?! Pensamentos que corriam em minha mente naquele momento. O infectado me puxava para ele, ao mesmo tempo em que tentava rastejar para fora. Seu corpo estava mole, como se tivesse sido todo arrebentado, o que parecia ter acontecido no suposto atropelamento. Mas aquilo nem passou pela minha cabeça. Ele me puxava com toda força com o braço que não havia tantos danos aparente, enquanto eu literalmente tentava me arrastar para trás, mas a mochila me atrapalhava, por isso com dificuldade tirei-a e joguei para o lado. Como fui tolo, poderia muito bem ter sacado uma de minhas facas ou a própria arma em minha cintura, mas não conseguia, eu só pensava em me livrar dele sem pensar no mais lógico. À medida que minha perna se aproximava de seu rosto castigado, ele abriu a boca mostrando os dentes tortos, soltando um gemido angustiante. Em desespero, apóie a outra perna contra o carro, e empurrei com toda a força, enquanto sacudia a segurada com todo o pavor que me era concedido. Com meus dois braços, tentava me arrastar para trás, mas escorregava constantemente. Foram segundos traumatizantes, em que o medo me prendia, e meu corpo era puxado para a morte. Tentei erguer meu braço para frente, em direção à calçada oposta, tentando me arrastar de outra maneira, mas ele era forte, fazendo minhas unhas riscarem o asfalto. Não tinha jeito, era assim que terminaria? Não. Admito que eu era um covarde, um medroso, mas não por sentir medo, mas deixar o medo me consumir. Em situações de risco eu nunca me mexia, e a única vez que me mexi, há horas atrás, foi algo que me marcou por toda a vida de uma maneira sombria. Se não fosse pelo poder humano de sobreviver, de nutrir forças pela vida, eu não sairia daquela. Desapoiei o pé do carro e comecei a chutar a criatura com todas as minhas forças. Eu podia escutar o som da face sendo agredita, os olhos sendo acertados, a cabeça recuando. Eu chutei e chutei, até que minha sola se transformasse numa marca permanente. Eu chutei até que ele não tivesse mais forças para me segurar. Eu chutei para me salvar. Quando ele finalmente largou, arrastei minhas costas para trás com a força de minhas pernas e meus cotovelos, recuando do infectado que esticava a mão para me pegar. Eu respirava rápido, ofegando, tremendo violentamente. Subi na calçada e fiquei sentado olhando para ele, sem saber ao certo o que fazer, e só então me lembrei de minhas armas. Peguei uma das minhas facas, e a segurei firme. Ele estando preso, seria fácil silencia-lo... Não, desculpem a discordância de mim mesmo, mas não era fácil, não para mim. Quando disse que eles nunca voltavam a ser o que eram, isso eu nunca pude ter certeza absoluta, mas era isso que precisava acreditar para lutar contra minha própria condenação, contra minha própria queda. De qualquer forma, aqueles pensamentos se apagaram logo. Junto com o gemido constante da criatura, um outro gemido pôde ser ouvido, mas agora a minha direita. Meus olhos paralisaram-se, e eu só pude virar vagarosamente meu pescoço para o lado. Aquele vulto de antes, tendo a atenção chamada a meus gritos e os barulhos que eu causei, estava a alguns poucos metros de mim. Sua boca estava espumando um vermelho sangue assustador, sua respiração era pesada, seguida de gruídos constantes. Ele me encarava com aqueles olhos brancos e gelados, sua roupa rasgada com marcas por todo o corpo. Ele deu um passo para frente, dois passos, três passos de vagares. O tempo parou a minha volta, tudo não existia mais, e eu estava perto de ser nada. Ele avançou, e eu saltei para trás. Mais uma vez as armas foram esquecidas, e a faca que eu segurava caiu ao chão, e espero que algum sortudo tenha se salvado graças a ela. Peguei a mochila jogada e a coloquei enquanto corria. Você já teve um pesadelo em que, não se importa o quanto corre, parece que você nunca sai do lugar, e o monstro que te persegue chega cada vez mais perto? Claro que já teve um sonho assim, todos nos já tivemos, mas eu estava vivendo-o. A cada passo que eu dava, sentia como se não fosse nada, ele estava chegando cada vez mais perto. Cheguei a tropeçar, e caindo no chão já me arrastava para trás, levantando-me aos tropeços. Corria, corria e corria, e os gritos da criatura me seguiam pela rua. A imagem da própria morte, com sua foice me perseguia. Eu não podia fazer nada, não conseguia fazer nada, podia virar e atirar nele, mas não conseguia, não podia. Eu era covarde demais, e isso quase me condenou. Foi então que avistei ao fundo muros altos e um portão de ferro fechado, pichações por cima da pintura branca... Sim, era minha antiga escola! Um punhado de esperança foi socado contra meu peito quando a avistei. Os infectados tinham força para pular muros baixos, mas aquele muro era feito contra fugas de delinqüentes, e sozinho não há como pula-lo, mas isso vale para mim também, e essa linha de raciocínio me deprimiu, até ver a grande árvore que cresceu ao longo dos anos, bem do lado do muro. Sim, minha chance, minha salvação. Forcei minhas pernas ao máximo, e corri com tudo que podia. Lembro que ao chegar perto da árvore eu não subi nela, eu saltei sobre ela, um salto movido pelo pavor, fazendo-me ir para cima rapidamente. Antes de começar subir, tirei a mochila rapidamente a joguei para o outro lado, para facilitar minha subida. Escalei como nunca tinha escalado, e quase soltei um riso de conforto. Havia um galho que passava por cima do muro, ele não parecia ser forte, mas aquilo não me passou pela cabeça. Iria escorregar por ele até o outro lado do muro e pronto, estaria a salvo, com certeza aquela coisa não saberia subir uma árvore, foi o que pensei, mas era melhor não ter comparado espertezas naquele momento. Quando estava “escorregando” pelo galho, ele se quebrou. Uma quebrada rápida enquanto eu estava chegando ao muro, e quando percebi minha iminente queda, encaixei meus braços por cima do muro. Minhas pernas balançavam procurando apoio, e seria até uma subida rápida, se o infectado que me perseguia até então não tive agarrado meu pé. Foi como se a cena anterior, a do carro, tivesse sendo repetida, mas só agora posso fazer essa ironia, porque naquele momento, eu estava apavorado. Lembro-me de puxar com todas as minhas forças, debatendo-me contra a criatura, que me puxava. As veias dos meus braços saltavam enquanto tentava subir com todo o fôlego que eu tinha. Eu subi um pouco, já conseguia colocar a outra perna um pouco acima do muro, mas o infectado continuava agarrado meu pé, e só Deus sabe a sorte que tive dele não alcançar meu tendão, podendo arrancar um pedaço do mesmo com uma mordida feroz. Por sorte, o debater da minha perna fez a criatura me soltar, mas tão subitamente, que me fez cair para traz, do outro lado do muro. Uma queda media, terminando com o impacto de minhas costas e minha nuca no chão liso do ginásio, me fazendo ficar descordado por alguns segundos, ou pelo menos é o tempo que eu acho. Abri os olhos vagarosamente, estava meio tonto, mas nada muito grave. Minhas pernas estavam erguidas, apoiadas na parede de onde cai. Tentei me erguer rapidamente, mas precisei virar-me de lado para conseguir apoio e levantar. Meus olhos analisaram rapidamente o local, e pude rapidamente reaver minha mochila que estava a poucos centímetros a minha direita, e só me acalmei quando tive certeza que não havia nenhum deles lá, mas mesmo não tendo, o cenário já tirava o ar de meus pulmões. A entrada da escola dava para uma quadra poli esportiva, onde o chão estava coberto de todo o tipo de coisa. Havia mochilas e outros materiais de escola no chão, espalhadas por uma possível fuga em massa. Apertava-me o coração ao ver mochilas de rodinhas, enfeitadas com personagens infantis, manchadas de sangue. Crianças, imaginar crianças passarem pelo que eu passei me dava sensações horríveis. Cadernos, canetas, estojos, livros, tudo jogado ao chão, cobertos de sangue e até pedaços de, pelo que parecia, carne, algo que preferi nem observar. Lembro de ver as bolas que eram usadas em jogos estouradas no chão, os gols de cada lado, por não serem presos ao chão, caídos, destruídos. As arquibancadas, onde havia gente, havia sangue e mais sujeira. E o pior de tudo era observar que certas manchas tinham marcas de mãos e pés, detalhes que atormentavam cada vez mais. Os ataques em minha cidade começaram de tarde, depois do 12:00, em um período onde crianças menores estudavam aqui, pequenas pessoas que seriam o futuro do mundo, ingênuas e iniciando a vida. Se fossem os mais velhos pelo menos, mas não, eram apenas crianças. Andei um pouco até sair do ginásio e chegar ao uma área que seria o pátio. Era pequena para a quantidade de alunos, para era o que tinha. Lembro de estudar aqui há alguns anos, sendo aqui que terminei o ensino do primário até o médio. A escola pouco mudou, e isso me dava uma sensação forte de nostalgia, mas o sangue tirava essa maravilhosa sensação. Pensei em encerrar essa parte agora, mas preciso continuar enquanto tenho forças, pois essa parte realmente é onde queria chegar hoje. Eu ainda estava tenso com o que havia acontecido, e havia olhado várias vezes para trás para ter certeza que o infectado não tinha atravessado o muro, pois nem o som dele eu escutava mais. Andei alguns passos quando olhei para cima, e para ficar ciente, da arquitetura de minha escola imagine um segundo andar sem um primeiro realmente a parente. Em cima do pátio havia as salas, seguradas por enormes pilares, onde também havia janelas nos corredores, dando para ver os mesmos lá de baixo. Espero ter sido claro, mas enfim, ao olhar para cima, para uma dessas janelas, pude ver uma pessoa, alguém com um cabelo comprido e negro, e pela altura que tinha, pois se via pouco da imagem pela janela, chutei que seria uma criança. Essa visão me deixou sem ação por um instante, mas por algum motivo, seja lá qual for eu ainda tinha esperanças, e por isso imaginei que uma criança ainda estava viva. Talvez seja o fato deu não acreditar em uma criança infectada, pois não tinha visto nenhuma até agora, e essa visão parecia ser horrível de mais para acontecer... É, eu era ingênuo. Corri até as escadas que ficam no final do pátio, uma escada diagonal que dava para aquele corredor. Subi rapidamente quase tropeçando nas escadas, com um tom ainda ofegante da corrida dada há pouco tempo atrás. Quando cheguei ao inicio do corredor, pude escutar um barulho de passos mais a frente. Lembro que ela tinha entrado na penúltima porta, e então corri até lá. Minhas pernas tremiam um pouco, mas a chance de encontrar uma menina viva poderia mudar meu rumo. Para ser franco, só agora percebo o que me aconteceu realmente. Imagino que minha mente estivesse em seu ultimo, as coisas que já havia presenciado poderiam destruir qualquer um, e isso é verdade. No fundo, eu apenas corri para aquela sala numa chance de encontrar aquela criança viva, pois meus amigos, entre as poucas coisas que podem salvar a vida de uma pessoa, é o sorriso de uma criança, e alem disso, imagine se eu pudesse levar ela para longe do perigo, ser chamado de herói por isso... Pobre e ingênuo burro que eu era. Envergonho-me de lembrar desses pensamentos. Nunca fui um herói, um pensamento insano de uma cabeça fraca,a procura de qualquer coisa para se apoiar, isso era. Bom, vamos logo com isso e dizer o que aconteceu. Parei na porta da sala, e olhando de frente vi a garotinha de costas para mim. Ela estava ali parada, com as mãos juntas para frente, e aparentemente algo caia, gotas se chocavam contra o chão. Acreditei que eram lagrimas, pois não podia ver muito claramente. Ela estava com medo, assim como eu, sozinha e indefesa, assim como eu, pois era isso que eu era, uma pobre criança de alma jogada ao fogo, e uma criança burra por sinal.
- Calma, fique tranqüila, eu não vou te machucar. Você esta sozinha?
Essa foi a única frase que eu disse em muito tempo, nem lembrava da minha voz antes disso. Avancei alguns poucos passos, e aproveitei para colocar a mochila de lado, em cima de uma carteira. De qualquer forma, a garotinha virou. Já adiantando, aquilo que caia, as “lagrimas” eram gotas de sangue, que escorriam do pedaço direito da face da garota, que estava literalmente arrancado, sobrando uma carne viva. Eu paralisei, cai sentado, estava branco, pasmo, tudo que imaginei ser a minha salvação era o meu maior pesadelo. Uma criança infectada, com os dentes a mostra, espumando sangue, avançando contra mim com um gruído de congelar seus tímpanos. Ela saltou sobre mim, que finalmente saquei uma de minhas facas, mas como um reflexo tão inconsciente que não serviu para nada. Eu a segurei sobre mim, que forçava para alcançar seus dentes e me transformar em um deles. O sangue deu seu rosto arrancado caia sobre mim, sobre minha bochecha. Ela me encarou com aqueles olhos brancos e vazios, enquanto o cabelo negro caia sobre meus olhos. Não podia matá-la, não podia matar uma criança, mesmo que ela não seja mais uma criança, eu não conseguia. Então, com um grito de raiva, e com toda a minha força, a ergui e joguei-a para fora da sala. Ela acertou em cheio a parede, mas pareceu nem ter sentido. Quando ameaçou levantar, eu fechei a porta com força, e encostei minhas costas na mesma. Sentia a batida dela para entrar, os gritos de raiva tentando por a porta a baixo. Eu escorreguei para baixo, até me sentar, apoiando minhas costas na porta. Não sabia o que fazer, estava tremendo como nunca, suando como nunca. Não havia o que fazer, realmente, não havia um lugar sequer a salvo. Todos eram monstros agora, e eu estava ali, sozinho, condenado a passar a vida inteira convivendo com esse pesadelo.
1 comentários:
gominha hsauhusah muito bom em ...
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