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De suas opniões, críticas e elogios nos comentarios de cada capítulo para que a historia e o escritor evoluam cada vez mais xD

Capitulo 3 – Infectado

Hoje, algo irônico aconteceu. Devem ser umas três da manhã agora, e eu me vejo sem um pingo de sono, sentado frente à máquina de escrever onde posso repassar todos os acontecimentos que fui obrigado a presenciar, depois de um sonho, sendo que esse mesmo sonho foi o que tive na primeira noite no inferno, a noite que passei abraçado a meus joelhos, em uma sala de aula de uma escola esquecida por Deus, e acho que seria o ideal dividi-lo com vocês. Não sei se chamaria de sonho, pois para mim sonhos são os momentos de descanso que temos dos temores da vida, onde nos encontramos em um mundo criado pela nossa própria imaginação. Também não chamaria de pesadelo, pois mesmo os pesadelos sendo temores que temos durante nossa estadia no universo, trazidos a tona em nossos sonos, o momento que estamos mais indefesos, ainda assim eram apenas pesadelos, ilusões de medo. O que eu tive foi uma lembrança ruim. Era tarde, um pouco depois do horário de almoço habitual. Estava sentado em um sofá de três lugares sozinho, com as pernas esticadas no chão e minha cabeça recostada. Não tinha nada muito bom para se ver na televisão, todos os canais passavam a mesma coisa, inúmeras notícias de todos os telejornais sobre uma doença misteriosa, onde as informações eram até então limitadas, mas haviam vários e vários boatos rodeando-as. Eu estava cansado, tinha faltado do meu trabalho de estagio, detalhes que podem ser cortados. Olhei para o relógio, e vi que eram três horas da tarde, e o sol estava escaldante. Minha tia estava na cozinha, lavando a louça como qualquer dia normal. Alguns minutos se passaram, e eu tive uma sensação estranha, como se algo estivesse errado. Naquele momento, um dos canais em que eu assistia iniciou um sinal de emergência, uma tela azul com a mensagem, seguida por um zumbido fraco. Levantei a sobrancelha e ajeitei meu corpo no sofá, avançando para o próximo canal... Igual. E o outro, e o outro, e o outro. Todos iguais. “O que é isso?” Eu me perguntava. O sentimento de incomodo aumentou, sentia-me até mal com aquilo. Então um corte, como se acelerasse um filme. Eu estava em frente ao pronto-socorro onde meu tio trabalhava, havia pessoas corriam de um lado para o outro, imagens distorcidas e confusas. Então, um tiro, e tudo parou. Acordei na mesma posição que tinha dormido, com a boca completamente seca, olhei em volta e tudo vazio, tudo em silencio. Por um momento, imaginei que podia ter acordado de um pesadelo terrível, e estaria na minha cama, levantando em uma manhã comum, mas quando olhei em volta, só pude baixar a cabeça e soltar um suspiro. Era real, tudo o que passei até agora era real, e eu não podia fazer nada quanto a isso. A primeira coisa que fiz foi tirar uma das garrafas de água da mochila, e entorna-la pela minha garganta. A lembrança que tive agora pouco não era exatamente certa, na verdade, digamos que os acontecimentos se embaralharam, mas a essência foi a mesma. De qualquer forma, prosseguimos. Enquanto bebia, pude enfim perceber que as batidas na porta tinham cessado, tendo no lugar um silêncio que dava calafrios. Encarei-a por alguns segundos, e realmente não parecia haver nada do outro lado, e o que poderia ser algo confortável só dava mais inquietação. Aproximei-me da porta devagar, me ajoelhei e engoli um seco, minhas mãos tremiam e eu estava nervoso. Encostei meu ouvido lentamente contra a porta e parei de respirar: Nada. Fiquei um tempo daquele jeito, esperando que algo batesse na porta e me derrubasse de susto para trás, mas não havia um só ruído. Recuei-me e pensei por um instante aonde a garota podia ter ido, olhando em volta por um instante. A sala não era mito grande, o bastante para quarenta alunos talvez. As carteiras estavam jogadas no chão, espalhadas desordenadamente pelo lugar, no quadro negro havia uma conta de matemática pela metade, e na frente dele a mesa do professor cheia de pé de giz e folhas bagunçadas. As janelas estavam meio abertas, com as cortinas rasgadas e caídas. Cheguei perto o bastante para tentar olhar lá fora, mas ao lado daquelas salas havia outro prédio da escola, que obstruía a visão. Sabe aquela sensação estranha de estar parado em lugar e não saber exatamente o que fazer, ficando em pé imóvel por alguns instantes? Foi assim que eu fiquei. O que fazer? Ficar ali por um tempo, por uns dois dias... Não, não daria certo. Sair ela a única solução, não havia como ficar trancado ali por muito tempo, mas o medo de encontrar a pequena infectada travava minhas pernas. Passei algumas horas dentro daquela sala, e se não tivesse convencido a mim mesmo que não sobreviveria muito tempo lá dentro, talvez estivesse lá até hoje. Quando finalmente decidi sair, escutei o barulho de chuva do lado de fora. Peguei minha mochila, e com as mãos tremendo furiosamente, segurei a maçaneta. Engoli outro seco, e comecei a virá-la, e mesma sendo algo simples, parecia estar girando uma barra de ferro. Coloquei minha cabeça para frente, a fim de olhar pela fresta da porta quando ela se abrisse, mesmo com o calafrio subindo pelo meu corpo, quando finalmente abri a porta. Quando a fresta se abriu, respirei fortemente como um modo de encorajar-me, mas nada adiantava, estava morrendo de medo. Olhei o pedaço do corredor e não vi nada, abri mais um pouco, e ainda nada, estava apoiando-me pela mão sobre a maçaneta, enquanto empurrava a porta com o corpo, mas por um descuido escorreguei a palma para a direita, fazendo-me abrir toda a porta numa queda, caindo com o braço e o joelho no chão, fazendo um barulho ecoar pelo corredor. Fiquei paralisado, olhando freneticamente em volta, quando ouvi um súbito gruído. Não conseguia me mover, estava quase que preso ao chão, olhando atentamente pelo corredor, até que ouvi alguns passos, um som que me soltou e fez-me recuar para a parede da sala. Os passos eram lentos e os gruídos finos, comecei a respirar rápido, tentando segurar minha tremedeira, quando os passos cessaram. Eu não sabia realmente o que fazer, se eu voltasse a me trancar na sala nunca mais sairia dali, então precisava continuar, de algum jeito, mas meu medo era demais, meu pavor me recuava, e eu iniciava uma luta comigo mesmo. Então, num movimento repentino, coloquei meu olho direito para fora, tentando manter-me escondido,e pude vê-la, a menina parada no meio do corredor, de costas para mim, parada, ela estava usando um uniforme escolar, e seu cabelo longo e comprido estava arrancado do lado direito. Meu peito se apertava ao ver uma pobre criança naquela situação, uma cena na qual nunca me esqueci até hoje, e só naquele momento pude prestar atenção a ponto de ver que a garota carregava uma bolsa com apenas uma alça que ia de seu ombro direito até a cintura esquerda, sendo que no meio das costas parecia estar cedendo por algum corte. Eu fiquei olhando para ela, esperando que pudesse pensar em algo, mas nada, só a imagem da garota cobria minha mente, até que ela se mexeu, um passo pequeno para esquerda, fazendo-me recuar de susto, mas voltar logo em seguida. Ela começou a virar para esquerda, e pude então ver metade de seu rosto, a face não arrancada, e juro para você, meu caro leitor, que posso até admitir que estivesse completamente desfocado naquele instante, mas eu juro ter visto uma pequena, quase mínima, gota de lágrima presa ao olho da menina. Aquilo me deixou perplexo, e não pude tirar os olhos dela enquanto a mesma caminhava para dentro de uma da sala ao seu lado, e no caminho, a alça rasgada estourou, fazendo a bolsa cair no chão. Quando a garota finalmente entrou, abaixei a cabeça um pouco, pensando, e quando acordei, percebi que essa era a chance. Comecei a avançar lentamente pelo corredor, mas como minhas pernas tremiam muito, acabei indo agachado até chegar à frente da sala onde a menina estava, e então olhei para baixo e vi sua bolsa. Era algo muito simples, um coro leve pintado de rosa, mas por algum motivo me chamou muita atenção. É meio estranho, e agora me parece até um pouco patético, mas é como se eu me afeiçoasse à menina, e por isso sua bolsa me chamava atenção. Sempre gostei de crianças, sua pureza e ingenuidade é algo contagiante, e mesmo transformada em um monstro, aquela garota me transmitia um ar de sua infância, algo estranho e difícil de explicar, mas espero que vocês entendam. De qualquer forma, quando olhei para frente, dentro da sala, pude ver o quão descuidado fui, pois enquanto olhava a bolsa, fiquei completamente exposto, e a infectada me encarou com seus olhos vazios, e quando percebi, ela já avançada contra mim. Num movimento rápido movido pelo susto, avancei dentro da sala, e agarrando a maçaneta da porta, fechei-a rapidamente, podendo sentir a forte batida da menina contra a porta, fazendo-me cair ao chão. Nesse momento, não sei ao certo o que me deu, estava assustado demais, aqueles pensamentos que tive há alguns segundos foram contaminados por uma nevoa negra, e os golpes contra a porta me apavoravam. Por qual motivo que seja, lembro-me bem de olhar a bolsa caída e pega-la rapidamente, enquanto corria para a escada, fugindo dos gritos da menina, e por estar correndo e assustado, acabei escorregando pelo primeiro degrau, caindo pela escada em uma seqüência de tombos, tendo um forte impacto final. Por muita sorte, não me machuquei de uma maneira muito seria, mas fiquei caído ali, olhando para cima com a cabeça vazia, com meus olhos encarando o nada. Depois de um tempo, finalmente levantei-me, e permaneci sentado, suspirando quase em seqüências, os gritos da garota ainda eram ouvidos, e eu forcei minhas mãos contra meus ouvidos, tentando encerrar aqueles gruídos de dor. Naquele momento, vi pelo recanto do olho o couro rosa, que me chamou atenção, e até hoje não sei por que diabos peguei aquela bolsa, mas no fundo preciso. Ela estava aberta, e por isso todas as coisas da garota espalharam-se pelo chão, pertences como maquiagens, chaveiros, e... Uma carteira de estudante. Peguei aquele papel plastificado lentamente, e vi o nome da garota escrito: Julia. Esse era o nome da menina que na foto mostrava uma graciosidade que só uma criança poderia ter. Lembrei-me do rosto atual da pobre garota, que no lugar de brincar, esta agora a surrar uma porta desesperada por me matar. Não sei quanto a vocês, mas isso ainda me faz sentir-me mal. Eu poderia ser forte naquele momento, e voltar à sala e acabar com um possível sofrimento, mas não, eu era fraco e medroso. Toda minha sobrevivência até então foi conta de sorte e movida pela força do meu medo, só isso. Julia, esse nome é lembrado por mim até hoje. Coloquei todas as coisas da garota dentro da bolsa e a coloquei no ultimo degrau da escada, não me pergunte o porquê. Levantei devagar, enquanto o som da chuva aumentava, e com passos vagarosos avancei para fora da escola.

Bom, acho que vou dar uma pausa e tentar dormir um pouco, espero não ter mais desses sonhos por hoje.

...

É... Hoje está um dia bem calmo. Depois que terminei de escrever passei mais uma hora e meia deitado olhando para cima, relembrando de tudo que havia contado. Eu sempre quis fazer algo grande em minha vida, tinha medo de ter netos e não ter uma boa historia para contar a eles, pois em plenos 20 e poucos anos eu tinha vivido uma vida simples e chata, pelo menos a meu ver. Minha infância foi comum, minha adolescência foi cansativa, e minha passagem para o “um mundo adulto” foi estressante. Não digo que minha vida até então foi ruim, só digo que podia ter sido melhor... Se eu pelo menos tivesse conhecido meus pais as coisas podiam melhorar... Que coisa estou escrevendo. Engraçado que quando alguém escreve em um computador, é fácil apagar algo errado, alguma frase escrita por espontaneidade do momento, mas numa máquina de escrever como a que uso não, as palavras ficam naquele papel até serem cremadas no mínimo, e isso em minha opinião é a essência real da escrita, foi uma das coisas que me apeguei na vida atormentada que tive. Minha mãe morreu dando a luz a mim, mas não antes de meu pai abandona-la em plena gravidez. Ok, agora estou começando a escrever fora do contexto, voltemos ao assunto principal. Já passou a hora do almoço e estou bem relaxado, isso ajuda minha memória. Cortando alguns detalhes vagos, estava eu andando pela rua debaixo de uma chuva gelada, me recostando contra as paredes ao lado, segurando a mochila sobre a cabeça, tentando me proteger do máximo de chuva possível. Eu podia muito bem ter ficado na escola até a chuva passar, mas a presença da menina dentro da sala me assombrava. Também podia muito bem entrar em qualquer casa, que com certeza estavam mais que abandonadas, mas eu tinha medo de acontecer como antes e achar algum “deles” lá dentro, e alem disso, quem garantia que não havia ninguém nas casas numa situação como a minha? Mas essa ultima questão nem passou pela minha cabeça. Para mim, eu era o último naquela cidade. O jeito foi ir caminhando pela chuva, até que eu finalmente pudesse ter alguma idéia do que fazer. Meus passos eram rápidos, e faziam a água do chão subir nas minhas pernas. Eu estava vestido com o casaco, então o frio era suportável. Era estranho como não tinha nenhum infectado pela rua, pois há certo tempo centenas corriam por ai, mas agora tudo vazio. Onde eles foram? Eu não sabia até então. Continuava a seguir o caminho, e percebi que o conhecia, como se já tivesse passado por aqui varias e varias vezes, e foi ai que eu lembrei. Antes de tudo chegar aonde chegou, recebi um telefonema de um velho amigo de infância, um dos poucos, senão um dos únicos, que eu tinha. Ele sabia do tumulto do hospital e sobre meu tio trabalhar nele, e perguntou se eu precisava de algo, qualquer tipo de ajuda. Ele sempre foi um tanto preocupado comigo, pois sabia que eu era, não usando a parte ofensiva da palavra, fraco, e por sempre ser uma pessoa inteligente e forte, era um cara que eu podia contar para minhas fraquezas. Ao saber sobre os ataques constantes entre pacientes contaminados e pessoas perto do hospital, ele me perguntou se eu não queria ir até seu apartamento junto com minha a família, pois dentro de poucas horas ele planejava sair da cidade junto com a namora para a fazenda dos pais, e me convidou para acompanhá-lo, pois achava mais seguro do que permanecer onde estávamos, mas garanti a ele que estava tudo bem, e que não precisava se preocupar, pois meus tios insistiam em ficar, pois acreditavam que a policia ou até o exercito ia tomar conta de tudo... Que Deus os tenha. Esse foi o ultimo telefonema antes das linhas ficarem completamente mudas. Não sei ao certo, mas por ser um amigo meu, minha esperança de ter alguém vivo parecia ter crescido (antes era zero...), só que apenas agora vejo que isso foi apenas teimosia. Há algum tempo eu passei pela mesma coisa, esperança de uma criança sobrevivente foi morta por uma pequena infectada.. Para falar a verdade, acho que eu queria achar alguém apenas para ter com quem desabafar, para ter alguém para segurar meus sentimentos por mim, como sempre fiz. Desde criança a dor de ser o culpado pela morte de minha mãe era segurada por meus tios, e isso me deixou, digamos, “mimado”. Eu era um “adulto mimado” em questão de sentimentos, digamos assim. De qualquer forma, eu continuava a correr pela chuva, com uma faísca de esperança nos olhos, mesmo que pequena. Então, de longe, pude ver o prédio, tinha uns cinco andares, era pequeno comparado a outros, e diferente da maioria, não havia uma portaria se assim dizemos, tendo apenas uma porta dupla de vidro, ao lado havia um interfone com o número das casas onde um visitante poderia chamar o apartamento que queiram subir, e assim o morador abre a porta sem necessitar em descer. Eu sempre dizia a ele que isso não era muito seguro, qualquer um podia quebrar aquela porta facilmente, e a segurança do prédio era mínima, mas era o que ele podia pagar por enquanto, pois negava receber dinheiro dos pais e vivia pelo seu trabalho de médio salário, mas isso não importava, era onde meu amigo morava, e o máximo que pensei que poderia ver era um apartamento vazio, e meu amigo ter ido embora há tempos, mas não custava tentar, era o que eu me apegava naquele momento. Corria rapidamente, e então, pude ver que em frente ao prédio, batido em um poste a uns dois metros a esquerda da entrada do prédio, um carro vermelho completamente destruído. Pela aparência, deve ter se chocado em alta velocidade, a lataria estava contorcida e os vidros estilhaçados. Resultado de uma fuga assustada desatenta talvez. Aproximei-me do prédio distraído com os destroços, e não percebi três sombras em frente, e só os vi quando estavam a uma curta distancia de mim. Eram dois homens e uma mulher, todos adultos, cada um com uma aparência pior que o outro. Um dos homens tinha um pedaço da perna direita arrancada e seu braço estava quebrado, o outro tinha uma ferida fatal no pescoço, enquanto a mulher estava com a mandíbula contorcida. Quando percebi os três, estava passando ao lado do carro, e com o susto parei bruscamente, e como chão estava completamente molhado e com alguns pedaços de metal e tudo mais, escorreguei. Para não cair, em reflexo segurei numa parte lataria do carro, mas o impacto da minha mão fez um pequeno som ecoar pela rua, e alem de minha perna esquerda deslizar pela frente, chutando pedaços de vidro e metal. O som da chuva escondia um pouco do barulho, mas não o bastante, pois nem estava chovendo tanto. Os três perceberam o barulho diferente, e viraram-se na minha direção. Parecia que ainda não ficou claro para eles que eu estava ali, mas para mim eles já queriam me atacar. Respirei profundamente e corri para a porta do prédio, colocando desajeitadamente a mochila em minhas costas novamente. Ela estava trancada, e não tinha sinal de arrombamento. Será que o pessoal que morava ai, principalmente meu amigo, ainda estavam vivos? Essa pergunta queria ser respondida por um sim, mas mesmo eu querendo não podia confirmar. Ele morava no 3º andar, qual apartamento? Veio-me um branco no momento, eu não conseguia lembrar, e as criaturas pareciam das passos vagarosos para frente. Qual era? Qual era?... 11! Quando me lembrei, joguei minha mão sobre o botão e fiquei apertando constantemente, na esperança de alguma voz perguntar “Quem é?” Comecei a desesperar-me com o a aproximação das criaturas e a ausência de uma resposta, forçando a porta numa tentativa de abri-la. Sem sucesso, comecei a olhar em volta, procurando qualquer coisa que me ajudasse, qualquer salvação que eu poderia ter, e foi quando vi caído no meio fio da calçada, o arame da roda do carro destruído. O objeto redondo e metálico iluminou meus olhos, fazendo-me avançar para pegá-lo. Não era muito pesado, devia ser feito de liga leve, mas devia ser o bastante. Lembro de ouvir alguma coisa nas aulas de física do colegial, em que a parte central de um vidro, dependendo do tipo, é a parte mais frágil do mesmo. Sendo verdade ou não, era o que eu tinha em mãos. Os infectados estavam mais pertos, e agora pareciam ter certeza que havia alguém ali, e por isso avançavam um pouco mais rápido. Sem pensar duas vezes, com toda a força que tinha em minhas mãos arremessei-o contra o centro da parte esquerda da porta, estilhaçando-a. Com esse barulho duas vezes maior que o de antes, as criaturas avançaram mais ainda. Adentrei o prédio rapidamente, correndo até as escadas, sem pensar em usar o elevador. Subia dois degraus por paço, quase que flutuando sobre as escadas, enquanto ouvia o barulho de passos sobre o vidro estilhaçado. Chegando ao primeiro andar já estava baforando, mais acho que era mais de medo que de cansaço. Continuei subindo, e o barulho das criaturas ficava mais para trás. Cheguei ao segundo e um pequeno sorriso surgiu. Subia furiosamente, apenas visando chegar ao meu destino. Terceiro andar. Parei bruscamente, quase deslizando pelo chão, olhei em volta e vi: Apartamento número 11! Avancei como um raio e virei a maçaneta, e estava aberto! Entrei e fechei a porta no mesmo instante. Com as mãos apoiadas sobre a porta, respirei aliviado, enquanto pude ouvir os gemidos “deles” do lado de fora. Possivelmente não tinham me visto entrar, e por isso eu estava seguro. Hoje acho que era um ato imprudente o meu, pois se eu acreditava que meu amigo estava vivo naquele lugar, outros poderiam estar, e trazer essas criaturas para dentro do prédio poderia matá-las. Mas isso não veio em minha cabeça. Minhas pernas começaram a sentir o cansaço da subida, e iniciaram uma tremedeira constante, mas então lembrei do que estava fazendo ali. Frente à porta, havia um pequeno corredor, de um metro e meio no máximo, ao lado direito havia uma porta aberta que dava para a cozinha, ela estava aberta, e muito bagunçada. Minha expressão de alivio desequilibrou por um instante ao ver pratos e panelas caídas ao chão, algo que me espantava. No fim do pequeno corredor, havia o inicio da sala, com uma mesa de jantar de vidro preto com uma toalha mal colocada sobre ela. Ao lado direito dois sofás formavam um L, com um de costas para mim, e outro frente a uma pequena televisão sobre um móvel. Estava tudo quieto, mas eu podia escutar um pequeno barulho ao fundo, como algo amassando. Chamei o nome de meu amigo, que prefiro não escrever aqui. O pequeno barulho parou. Uma gota de suor desceu pelas minhas costas, então o chamei novamente. Então, o ponto crítico da minha sanidade até aquele momento estourou. Do lado oposto ao sofá a minha frente, surgiu meu amigo... Ou o que sobrou dele. Seu rosto estava completamente morto, seus olhos brancos como neve, e em sua boca havia um pedaço de carne destroçada sendo mastigada. Sua camiseta branca estava coberta do vermelho de sangue, um pedaço do seu ombro tinha sido arrancado, e ele parecia nervoso. Ao olhar ele nesse estado, a chuva começou a ficar mais forte, e meu mundo desabou por completo. Posso ter ficado abalado com tudo até então, o morto embaixo do carro, a criatura me perseguindo, a pequena garota infectada, mas eu sempre fui atormentado pela morte de meus tios, meus únicos parentes conhecidos, e agora, a última pessoa com quem tinha algum contato, que poderia chamar de amigo, de família... Estava morto. Pior, tinha virado um deles. Meu rosto embranqueceu-se e caí de joelhos, meus olhos não piscavam e minha respiração era tensa. Não podia acreditar, minha última esperança, a última pessoa que eu podia contar, minha última família, não existe mais. Todas as esperanças pareceram ser arremessadas para longe, e naquele momento, eu percebi que estava sozinho nessa, e isso me assombrava. Então, subitamente, m eu amigo saltou pelo sofá para cima de mim, que perplexo me joguei para o lado, acertando minhas costas na mesa de vidro. Ele avançou contra mim, que só pude empurrá-lo com minhas pernas, enquanto tentava levantar. Sem saber o que fazer, me joguei por cima do sofá, e acabei caindo sobre algo. Quando percebi, era um corpo com as entranhas para fora. Prendi minha respiração e me arrastei para trás, apavorado, e foi só então que percebi que não era qualquer pessoa, era a namorada de meu amigo. Ele... Desculpem-me, é difícil descrever. Ele possivelmente deve ter sido mordido depois de ter me ligado, talvez por um morador quem sabe, talvez tivesse mais gente infectada naquele edifício, quem sabe. Só sei que ele atacou e devorou a própria namorada, a qual fui testemunha dela ser o centro do amor dele. Agora não passava de um corpo destroçado no chão. Segurei um vômito e me afastei mais um pouco, e pude sentir alguns pingos de água em minha nuca. Atrás de mim havia uma pequena sacada aberta, onde o vento forte jogava a chuva sobre meu corpo. Então, meu amigo saltou novamente o sofá, mas dessa vez acabou tropeçando o ultimo pé, e caiu de cara sobre a carne morta no chão. Levantei-me em um pulo, e recuei até encostar-me ao parapeito. Ele levantou e me encarou. Sua boca tinha pedaços de carne no dente, que espirravam gotas de sangue no chão. Minhas pernas estavam bambas, eu não me movia, não pensava, estava em pânico. Ele avançou. Um das alças de minha mochila estava caída, e quando joguei meu braço para frente, a bolsa ficou entre mim e ele. A mochila se amassava em meu rosto, enquanto meu amigo a abocanhava do outro lado, tentando desesperadamente me morder. Com uma das mãos livres, eu tentava de toda a maneira afastar aqueles braços que balançavam de maneira desordenada contra mim, enquanto tentava forçar o corpo para frente para não cair de três andares de altura. Ele mordia com tanta força e voracidade que começo a rasgar a mochila, e sobre o chão gelado e molhado da sacada caiam latas de comida e garrafas de água. Eu estava ficando encharcado, e o sangue do corpo dele escorria para baixo, cirando uma poça vermelha sob meus pés. Não havia o que fazer? Para mim não. Eu estava destruído. Comecei a me lembrar dele antes disso tudo, de nossas conversas, passeios, escolas, crescendo juntos. Ele era a minha última ligação com minha antiga vida, e agora... Com uma raiva que borbulhou de dentro de mim, empurrei-o com força de volta para sala, fazendo-o cair novamente sobre o corpo. Eu o encarei mais uma vez, e então a raiva evaporou, e o pânico tomou conta de mim novamente. Ele levantou rapidamente e avançou de novo, e ao recuar, segurei minha mão contra o parapeito, mas a água escorregou-a para baixo, e durante a queda ao chão da sacada, ele acabou tropeçando em mim mesmo, e tentando me agarrar, pegou a mochila, e levou consigo ao fim... Seu corpo se jogou contra o parapeito, e o peso dele mais a bolsa fizeram ambos cair. Levantei rapidamente, e enquanto descia minha visão, pude ver o corpo dele se esmagar no chão, e as coisas que eu havia recolhido se espalharem. Eu encarei aquilo com terror. Os pedaços dele começaram a escorrer por uma corredeira, junto com os objetos da mochila rasgada.

Naquela hora, ouvi uma trovoada.

2 comentários:

xBrunoAL disse...

Caraca Hicky a história ta incrível cara eu fico imaginando a cena na minha cabeça é incrível mesmo vou continuar a visitar o blog esperando mais capítulos continue assim (Y)

Hicky disse...

vlw Bruno xD

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