Tinha se passado no mínimo 10 minutos... 10 minutos depois que ele caiu de três andares até o concreto do asfalto. A chuva escorria tudo que podia rua abaixo, a corredeira que se formava próximo à calçada se manchava de vermelho. As gotas de água caiam com violência. Uma simples chuva estava se transformando em uma tempestade. O céu se cobria por nuvens negras, o vento criava quase um ciclone sobre a cidade, e eu fiquei ali, parado. Segurando firmemente o parapeito com minhas mãos, apoiando meu tórax sobre o ferro segurando o peso de meu corpo que se torcia para baixo, encarando o corpo paralisado. A água caia sobre minha cabeça, e juntando-se com as lágrimas que desciam dos olhos, escorriam pelo meu rosto. Meu corpo não se movia daquela posição, eu estava perplexo. Não sentia o frio nem o liquido gelado caindo sobre minhas costas, nem ouvia o barulho do vento ou das trovoadas. Eu só via o chão abaixo, o sangue... “Será que se eu pular daqui, morro tão rápido quanto ele...?” Esse pensamento passou pela minha cabeça como o raio que completava o cenário de meu tormento, e hoje posso perceber que eu estava completamente perdido naquela hora, e acredito que não fiz nenhuma besteira por pura covardia. Eu não tinha medo da morte em si, nunca fui disso. Mas o sofrimento que eu poderia ter, a dor agonizante que poderia me infligir, eu acreditava que até mesmo uma bala na cabeça deveria dar a vítima, mesmo que rápida, uma mórbida dor. E isso me apavorava. A dor da morte, para algo tão serio, deveria ser insuportável, e era apenas a isso que meu corpo se mantinha preso naquela sacada. Tenho certeza que talvez alguns que leiam essas folhas digam que eu era fraco, e que já passaram por coisa pior sem serem abalados. Claro, concordo, existe pessoas assim, mas existem pessoas como eu. Pense comigo, um rapaz sem pais que cresceu achando que veio ao mundo por algum erro, pois levei minha mãe e não era amado nem pelo pai. Sempre chorei, ao sentido figurado, no colo dos outros. Meus problemas sempre eram amaciados pelos outros. Se não era por meus tios, era por meu único amigo. Eles sempre estavam lá quando eu precisava, e eu sempre os tive comigo... Mas agora, todos estavam mortos, todos foram transformados em demônios... E todos foram finalmente mortos por minha causa. O que pensar sobre isso? Eu fiz o certo ao acabar com o que restava deles? Não sabia. Mas o mais importante e talvez arrogante problema era o que eu ia fazer. E agora? Eu não sabia, Não tinha mais idéias. Mesmo depois de horas de reflexão e ter conseguido algum, mesmo que pouco, autocontrole, eu não consegui nada, simplesmente andei em círculos. Todas as possibilidades de saída que me vinham a mente eram aquelas, encontrar alguém que me ajudasse, por que não acreditava em mim mesmo, e não acreditava que sairia daquilo sozinho.Eu só cheguei a essa conclusão naquele apartamento, que as caminhadas que dei até ali foram andadas por um mero rapaz sozinho, que teve apenas sorte. Se eu tivesse pensado na questão antes, talvez eu nem tivesse saído de casa, e não agüentado o fardo que ela me jogava nas costas, possivelmente atiraria na minha cabeça. Há algumas semanas, toda essa confusão para mim não passava de uma histeria da mídia, igual à Gripe Suína, um mero exagero. Quando as coisas pioraram, eu não mudei, não tinha medo, pois acreditava que sempre teria alguém comigo. Mas era diferente, eu estava completamente sozinho. Isso, meus caros leitores, pode levar qualquer pessoa ao puro delírio, do qual me salvei por uma sorte inacreditável. Talvez tenha alguém lá em cima que goste realmente de mim... E muito.
...
Lembrança.
Era um dia qualquer na cidade. Eu estava em um ônibus a poucos minutos de minha velha cidade. Era pequena, mas volumosa, e crescia a cada dia. Sentado perto da janela, contemplava a paisagem ao longo da estrada, com varias fazendas. Ajeitei a mochila que estava no banco do meu lado, que começou a cair enquanto o ônibus passava em vários buracos. Ela estava abarrotada, tive que sair às pressas e enfiei tudo que podia dentro dela. Deviam ser umas oito horas da manhã quando anunciaram o fechamento da universidade que estudo por tempo indeterminado. Achei estranho, mas era justificável. Há poucas semanas, uma doença maluca parecida com a raiva começou a se dissipar pela América do Norte. Não sabiam ao certo onde começou, mas algumas suposições da mídia diziam ter se iniciado em alguma pequena metrópole, e foi de espalhando por todo o continente. De inicio até achei engraçado, pois pensei ser mais uma daquelas doenças com pouca informação em que a mídia tenta transformar em algo estrondoso por alguns pontos de audiência. Mas ai a coisa ficou mais seria. Forças Militares norte americanas evacuaram uma grande parte da população da região para a ilha da Manhattan, criando uma gigantesca área de segurança máxima. Nada entrava e nada saia. Que tipo de doença faria algo assim? Alguma peste negra do século XXI talvez. De qualquer forma, antes que pudessem fechar aeroportos e outros meios de saída do país, parece que pessoas doentes conseguiram voltar aos seus países, chegando ao meu... Ótimo. Só sei que a cidade onde estudava tinha casos extensos em pouco tempo, e por isso meus tios insistiram que eu voltasse. Não havia como recusar, já que as faculdades literalmente pararam. Mas o que não consigo esquecer hoje realmente, é que ao caminho de casa, enquanto observava a estrada, um ônibus idêntico ao meu estava caído à frente. Policiais cercaram o local e indicavam aos motoristas a passagem para prosseguir. Ele estava com a metade fora do asfalto, contornado por um chão de cacos que refletiam a luz do sol. Um dos policiais subiu sobre a lateral do ônibus, que agora estava virada para cima, e olhou pelas janelas quebradas procurando sobreviventes. Não sei bem o que vi depois, mas fiquei um pouco assustado, e jurei pra mim mesmo que era apenas uma ilusão, mas quando o veiculo caído começou a ficar para trás, parecia que alguma mão avermelhada surgiu e puxou violentamente o policial para dentro. “Alguém a procura de ajuda fez o homem cair por acidente” pensei, tentando me aliviar da estranha cena. Por Deus, como eu estava errado.
O sol nascia. As nuvens negras que cobriam o céu se dissiparam em pequenas manchas brancas flutuando no ar. O vento forte parou e o calor começou e cobrir o frio da tempestade. A luz entrou por uma das janelas do quarto, dentre as cortinas bagunçadas, e atingia bem em meu rosto. Acordei lentamente, colocando minhas mãos sobre meus olhos irritados. Dormi em uma cama simples de solteiro, com os lençóis e cobertores quase caindo. O quarto estava fresco, mas o ar era pesado. Estava deitado sobre pura água, como se minhas roupas encharcadas tivessem criado uma poça sob meu corpo. Permaneci ali por alguns minutos, imóvel, olhando ao lado um criado mudo com um relógio digital, um abajur e uma foto da namorada dele. Mesmo estando calor, sentia o gelo do liquido em que eu quase boiava, chegando a pingar pela lateral da cama, escorrendo até o chão. Com as duas mãos apoiadas pelo colchão de mola, comecei a levantar meu corpo, enquanto pingos caiam de meu nariz. Minha respiração era grossa, eu podia muito bem ter pegado um resfriado naquele estado, mas eu não me toquei. Não me tocava de nada. Fique sentado na cama, enquanto água escorria pelo lado da cama em que eu sentava. Sentia-me horrível. Não havia o que fazer, não havia o que pensar, não havia nada. Mesmo dormindo, meu rosto tinha algumas olheiras, talvez o estado em que estava não tenha me proporcionado descanso nenhum afinal de contas, nem lembro se dormi realmente. Estava exausto no final das contas, e nada em minha volta fazia sentido.
De qualquer forma, levantei com um tremendo esforço, como se tivesse um peso sobre minhas costas. Fui cambaleando pelo corredor até virar para o pequeno banheiro. O azulejo era azul, e estava bem limpo, havia uma pia comprida com um armário em baixo, ao lado um vaso sanitário e um box transparente retangular. Dei três passos para frente e cai sobre o vaso, vomitando. Apoiando uma mão no chão e a outra nas bordas da privada. Eu tremia como se um terremoto se formasse sob meus pés, sentia um calafrio constante subir minhas costas. Meus olhos caídos e meu rosto branco criavam uma expressão de depressão e palidez. Encarava o chão com amargura.
Foi necessário um grande esforço para me levantar. Abri a torneira com toda a potencia, e um jato de água batia violentamente contra a pia, ricocheteando para minha barriga. Enfiei minhas mãos na água e literalmente joguei-a contra meus olhos, numa tentativa desesperada de acordar de um sonho ruim. Mas não adiantava.
Olhei para o lado e vi uma toalha vermelha pendurada no canto do box. Estiquei meu braço, dando alguns passos cuidadosos para o lado com as pernas fracas e bambas.
Arranquei minhas roupas e me sequei como pude, jogando tudo no canto do banheiro depois. Voltei para o quarto cabisbaixo, e arrastando meus pés cheguei até o armário de madeira próximo a cama. Abri lentamente, e um pequeno cheiro de mofo chegou às minhas narinas. Numa estante acima estava um cobertor velho enrolado, e aparentemente não tinha sido usado muito tempo, pois ele era exageradamente grosso, e há tempos que o calor predomina, até essa tempestade, claro. Ignorando isso, peguei algumas roupas e me vesti. “Estou pegando emprestado, depois devolvo” Eu disse com um pequeno sorriso. Estava louco. Dentro de mim, eu sabia que o dono dessas roupas nunca mais usaria qualquer uma delas, até porque ele está agora amassado no chão em frente ao prédio. Não sei o que me veio, talvez uma tentativa estranha de fingir que tudo era mentira, e rir para melhorar minha situação, seja o que for, não adiantou.
Era engraçado que até a um tempo antes de chegar à rua do prédio eu nem sequer lembrava do meu melhor amigo, uma pessoa muito importante para mim. Mas hoje vejo que tudo tinha sido um choque dos acontecimentos anteriores, e naquele momento, eles eram maiores. Depois de sair de casa, ainda conseguia pensar, talvez seja porque meus tios queriam isso, queriam que eu tivesse força, e por um momento eu acreditei neles, e no fundo acreditava que talvez, com sorte, eu sairia daquela.
Mas naquele momento, naquele estado que eu me encontrava, já havia desistido. Eu nunca conseguiria sobreviver num mundo como aquele.
Enquanto andava pelo corredor até a sala do apartamento, comecei a lembrar do que passei até ali, e iniciei um raciocínio. Um infectado preso debaixo de um carro nunca conseguiria pegar ninguém, e se não fosse por aquela roda em cima de sua perna... E aquele que corria atrás de mim, se não fosse pelo muro alto fornecido pelo momento... E se aquela infectada não fosse tão pequena e fácil de defender... E se eu não tivesse encontrado o arame da roda para quebrar a porta... E se eu não tivesse escorregado minha mão na sacada...
Em pensamentos lógicos, metade disso não mostra muito. A questão de sobrevivência esta relacionada a usar o que tem em volta ao seu favor, mas para mim aquilo significava fraqueza. Eu não enfrentei nenhum deles, não tive coragem de encarar nenhum deles. Estava armado com facas e uma arma com balas o bastante para levar ao chão pelo menos dois a queima-roupa, mas não. Eu só fugi e me escondi. Então como matei meus tios? De onde veio a coragem para matá-los? Talvez seus olhos implorando que eu fizesse aquilo me deram força? Será que até para me defender eu precisava de alguém? De alguém que me desse forças? Então a conclusão que cheguei é que sozinho não passava de um fracasso.
Estava sentado na cozinha, bebendo uma garrafa de água e comendo uma conserva de sardinhas, uma das comidas enlatadas e a única garrafa da minha mochila que caiu na varanda enquanto ela era despedaçada. O resto estava a muitos metros abaixo. Mesmo com o sol lá fora, a casa tinha um ar sombrio. A luz não entrava com tanta força em meus olhos, meio fechados.
Só estava comendo pela dor da fome que começou a ficar desconfortável, porque não sentia o gosto de nada. Quando acabei, fiquei sentado olhando para a bagunça na cozinha, tentando montar na cabeça uma cena que encaixasse em tudo aquilo. A namorada possivelmente lutou nem que fosse um pouco para não ser morta, mas parece que não foi capaz, seja por coragem ou força, de acabar com seu namorado. Imagino que ela tenha passado o mesmo que eu, mas não teve tempo o suficiente como eu tive. As imagens de minha casa e do que aconteceu vieram a minha cabeça. Cobri meu rosto com minha mão, enquanto soltava um grande suspiro. Deixei meus braços caírem para os lados, enquanto levantava a cabeça olhando para o teto, quando minha mão bateu na parte da cintura onde a arma estava guardada. Senti-la me fez lembrar que havia duas balas dentro do tambor, e que as outras já tinham sido usadas. Peguei a arma e fiquei analisando-a em minha mão. O desenho era realmente bonito, sempre gostei do designer dela. Foi presente de um velho conhecido de meu tio que freqüentava um clube de tiros, o mesmo aonde eu praticava minha mira toda a sexta-feira. Era um hobbie desestressante, e eu gostava, sentia-me seguro em saber disparar uma arma, mas sempre desejei nunca ser obrigado a disparar uma.
Num movimento satírico, apoiei o cano da arma na lateral de minha cabeça, e fiz um Bang! com a boca. Soltando uma risada forçada, coloquei a pistola de volta na minha cintura. Como eu estava ferrado. Nunca cogitei a possibilidade de encontrar-me nessa situação. Levantei-me devagar e fui até a porta do apartamento. O cheiro do defunto na sala estava infestando todo o lugar, e ele me lembrava de coisas ruins. Abri a porta lentamente, olhando em volta procurando qualquer sinal de movimento. Nada. Sem fechar a porta, caminhei até a escada e desci desajeitadamente, tropeçando ou descendo mais de um degrau de uma vez. Ao chegar ao saguão, percebi que tudo estava como eu deixei. Os cacos de vidros se espalhavam pelo chão, com algumas pitadas de avermelhados por cima, pensando no fato de três daquelas coisas passarem em cima do material cortante sem se importar. Quando vi isso, lembrei dos meus perseguidores, e percebi que não os vi desde que sai do apartamento. Qualquer um ficaria minimamente preocupado, pensando que eles poderiam estar descendo as escadas nesse instante, mas eu simplesmente dei os ombros e passei chutando os cacos longes.
Comecei a andar calmamente na rua, como se nada tivesse acontecido até àquela hora. Para mim, nada importava mais, que se dane tudo e todos. Se em qualquer momento um deles tivesse aparecido, mesmo que sem pernas e sem braços, se arrastando como cobra pelo chão por uma simples mordida em uma carne, eu já estaria morto há tempos. Mas por muita sorte, a parte da cidade por onde passei estava deserto. As ruas caladas só acordavam com o barulho de meus passos na calçada e em algumas poças. Havia alguns poucos carros pelo caminho, a maioria batidos ou capotados. As casas estavam quietas, com suas portas e janelas abertas ou quebradas. Um lixo cobria o asfalto, desde papéis e vidros até pedaços de automóveis e outros metais. O problema é que não havia um corpo no chão, nenhum sinal humano ou não-humano. Imagino que aqueles que não tivessem andando por ai, foram mutilados e devorados pelas vítimas de uma doença que as transformou em feras raivosas.
O calor estava de certo ponto calmo. A luz do sol descia sobre meu rosto, aquecendo meu corpo gelado. Depois de andar cerca de quatro quarteirões, cheguei a um lugar que parecia não ver a anos.
Estava diante de uma grande praça, localizada no centro da cidade. O lugar era um ponto verde no meio da urbanização em volta, com árvores contornando e preenchendo. Elas eram plantadas em porções de terras formadas por um relevo de cimento pintado de laranja, que criava um pequeno labirinto dentro do espaço da praça. Pelo caminho, havia vários bancos onde todos os dias as pessoas sentavam para relaxar ao som dos pássaros que pousavam sobre suas cabeças. Lembro que antes de tudo ir por água baixo, adorava ir para lá, relaxar nas manhas tediosas de certos feriados, onde todos estavam dormindo em suas casas até tarde, e eu contemplava o som calmo de um pequeno pedaço de natureza. Eu andava quase cambaleando entre as árvores, onde suas folhas picotavam os raios de sol, que chegavam calorosos até mim, refrescados pela brisa leve que circulava naquele belo lugar. Lembrava cuidadosamente dos momentos em que, deitado nos bancos, eu podia ter um minuto apenas meu, sem nada em volta para me perturbar.
Cheguei ao centro da praça, onde pude contemplar o coreto, uma das coisas mais antigas da cidade. Sua arquitetura era singela, simples, mas resistente. Ele era pintado com uma mistura de vermelho e verde que sempre achei um tanto estranho e chamativo, mas ao mesmo tempo elegante. Dentro dele já tocaram várias bandas de vários estilos, mas agora, uma névoa muda cobria-o.
Ao continuar andando, cheguei até o início de escadas com degraus largos e compridos, que subiam diagonalmente até a entrada de uma igreja.
“Igreja da Praça” era como chamavam a igreja católica mais antiga da região, um símbolo histórico de mais de 115 anos, onde fiéis se reuniam todas as semanas para suas orações. Aproximei-me olhando sua aparência frontal delicado, pintado com tons claros e suaves, que se estendia por toda a altura de uns 20 metros aproximadamente. A minha frente havia um grande portão dublo de madeira, a entrada principal, completamente aberta para dentro. Sem muita coisa em min há cabeça, entrei na igreja, e me deparei com um cenário meio óbvio.
Por todo o grande salão, vários bancos horizontalmente longos estavam espalhados de maneira desorganizada, com alguns caídos para trás. O chão liso estava coberto de sujeira e restos de pertences jogados, desde pequenos crucifixos e correntes até alguns sapatos, casacos e bolsas. Entrei devagar no recinto que não exaltava nenhum ruído sequer. Nas paredes, imagens de santos observavam meus passos desleixados, enquanto eu olhava os desenhos dos vidros coloridos que irradiavam a forte luz solar. A frente de mim, pude ver o altar onde o padre se apresentava aos seus crentes, onde uma mesa pintada com uma forte cor preta coberta por uma toalha branca, com um livro que, logicamente deveria ser a bíblia, aberto sobre ele. O que eu tentava ignorar em minha caminhada pelo salão era a cor vermelha. Mesmo não ligando mais para mais nada naquela situação, eu ainda procurava não olhar para o sangue que se estendia por cima de quase todos os pertences ao chão. Alguns bancos, principalmente os virados estavam cobertos de uma camada seca de sangue, e o mais assustador era ver que sobre o altar, grandes poças podiam ser vistas. Imaginei em minha mente varias pessoas assustadas procurando a salvação de Deus naquele mundo que só podia ser o apocalipse, e mesmo sentindo-se seguras ali foram obrigadas a correr por suas vidas enquanto o padre possivelmente era atacado. Claro, meras especulações minhas, nunca saberia o que realmente aconteceu no final das contas.
Próximo ao altar havia um banco que não estava desarrumado, e ali eu me sentei cabisbaixo. Nunca fui um religioso muito exposto. Havia varias coisas na igreja que eu não concordava, então criei uma crença objetiva que guardava só para mim. Claro que não vou explicar nada aqui, pois não viso criar uma historia com discussões religiosas, mas por isso eu ia pouco para as igrejas, só que mesmo assim lembrava de como as vezes que eu ia deslumbrava de uma cerimônia calma e tranqüila, com musica e pessoas agradáveis. Agora aquela em que eu estava não passava de uma lembrança. O cheiro de incenso que cobria o ar tinha sido substituído por um odor podre e velho.
Levantei a cabeça e encarei a grande imagem de Jesus Cristo na cruz presa na parede. Isso tudo seria um castigo? Será que o seu sacrifício foi em vão afinal de contas, e os pecados da humanidade consumiram-na até isso? Acho que não. Nunca acreditei que tudo que passei tenha sido um castigo, foi algo da própria natureza, e não de qualquer Deus que você acreditar. Fomos caçados assim como caçamos no passado, só plantamos o que colhemos, o “karma” como muitos diriam. De todo o jeito, não adiantava procurar um culpado, o que tínhamos que fazer era simplesmente sobreviver, para assim voltarmos as nossas vidas e aos nossos sonhos, precisávamos vencer aquele inimigo que punha a humanidade em um teste de corpo e alm. Mas como dizer isso ao pobre garoto sentado na igreja sem qualquer esperança? Não tinha como todos esses pensamentos surgirem em minha cabeça, eles foram colocados lá pela minha maturidade no novo mundo que vivíamos, e foi graças aquele momento em questão que tudo está como está hoje. Penso se não tivesse andado até a igreja, se não tivesse cambaleado por impulso até um destino incerto, e entrar naquele salão apenas por não ter qualquer outra opção em mente, onde estaria agora? Deveria estar morto naquele apartamento ou em alguma rua qualquer da cidade, provavelmente. Mas não, eu estava lá, no lugar certo e na hora certa, e agora contarei a vocês.
Enquanto estava sentado no banco, aparentando rezando, mas estando na verdade em um estado de transe deprimente, um barulho chegou aos meus ouvidos como o vento sacudindo uma bandeira em um alto mastro. Na lateral direita do salão, um pouco a frente dos bancos, havia uma escada que dava a uma porta onde levava a um escritório onde eram vistos as partes burocráticas e financeiras da igreja. Ao fixar meus olhos nela, um som de rangido da madeira foi seguido da porta abrindo-se bruscamente, e algo cair com força no chão. Um gemido vinha por cima daquela estranha cena. Enquanto observava paralisado, o corpo se arrastava pela escada, deixando um rastro de sangue, até estar ao chão, poucos metros de mim. Com uma dificuldade visivelmente intensa, ele se levantou. Estava vestido um traje social, um terno preto com uma gravata mal feita, aparentava ter no máximo quarenta anos, com alguns fios grisalhos cobrindo parte da careca. Seus estado era deplorável. Seu corpo estava mutilado, uma das mãos se prendia ao pulso por um simples fio de carne, seu pescoço estava torcido, fazendo a cabeça pender para a direita, seu tornozelo direito estava virado, seus olhos pareciam estar do avesso, e sua boca espumava uma gosma vermelha que escorria pelo rosto até o chão. Como um simples vírus consegue fazer isso com um ser humano? É algo que nem a ciência nem a religião conseguiriam explicar, pelo menos nunca para mim. Mesmo tendo essa visão pavorosa contra mim, eu não me mexi e não mudei minha expressão, estava com o rosto morto. Minha perturbada mente talvez achasse melhor assim. Se eu não fosse capaz de me livrar da dor de viver em um mundo de sofrimento, talvez essa pobre alma pudesse. Era como se eu, lamentavelmente, desistisse perante o inimigo, entregando minhas armas e minhas forças, pedindo uma morte rápida e indolor, mesmo sabendo que doeria muito. A criatura avançava lentamente, como se acompanhassem as batidas de um ponteiro de relógio, sua boca espumava mãos e seu gemido contorcia o vento. Era o fim, chega de sofrer, chega... Eu ia me juntar com minha família e meu amigo, todos nos teríamos o mesmo destino que o mundo provavelmente teve. Isso era o que eu merecia... Até uma batida.
Olhei para trás, para o portão da frente, esperando algo... Outra batida. Era uma batida fraca, que parecia vir de fora, um som que ecoava até aquele salão silencioso. Logo, pude ouvir passos sobre as folhas secas da praça, pisadas intensas e rápidas. Fiquei encarando o nada por alguns milésimos de segundos até ouvir:
- Desgraçados!
Era uma voz... Humana! Algo... Alguém lá gritou isso com uma voz de raiva. Minha expressão muda teve os olhos arregalados de surpresa. Era minha imaginação? Só podia ser... Até ele aparecer. Um vulto surgiu saltando os últimos degraus da escada e entrando com velocidade. Enquanto avançava, ao perceber a porta aberta para dentro da igreja, ele escorregou pelo chão liso e voltou alguns passos, agarrando um dos lados do portão, e quando terminara de empurrá-lo para frente, agarrou o outro, empurrando contra outros corpos que surgiam, tentando pega-lo com voracidade.
- Para trás seus merdas!
Ele gritava com uma raiva intensa, parecendo buscar dela a força para vencer as criaturas. Com muita dificuldade ele jogava suas duas mãos contra a madeira do portão, bufando. Então, rapidamente, ele olhou para trás, para dentro do salão por um instante, talvez para ver se estava limpo daquelas coisas, quando seus olhos me avistaram.
Eu estava pasmo, encarando-o como se ele fosse um fantasma, algo sem lógica e irreal. Ele tinha uma aparência jovem, uns 25 anos talvez, era negro e tinha o cabelo raspado, usava uma camiseta cavada, com shorts meio rasgado, usando tênis simples, em uma de suas mãos ele segurava o que parecia um taco de baseball. Um cidadão comum, como qualquer pessoa que você encontraria na rua, mas naquela hora ele era algo que não presenciava havia um bom tempo. Quando me viu, também aparentou surpresa, e gritou:
- Ei, você!
Prendi a respiração por um instante. Não era um sonho, aquele homem era real, estava ali mesmo!
- Dá uma ajuda aqui cara! Esses merdas são mais fortes que parecem!
Seus gritos eram potentes, dando um ar de resistência. Quanto a mim, enquanto ouvia, não conseguia me mexer. Minhas mãos estavam um pouco tremulas, e minha visão turva. O rapaz então, em um dos seus gritos, percebeu o homem ao meu lado se aproximando lentamente de mim, e quando estava pronto para chamá-lo para ajudar, teve o grito morto na garganta ao ver do que se tratava.
- Ei cara, tem um deles no seu lado! Não ta vendo não caramba?!
Quando terminou essa ultima frase, os infectados do outro lado do portão soltaram um golpe violento, quase como se atacassem ao mesmo tempo, derrubando o homem, que deslizava pelo chão. Quatro infectado entraram quase caindo, sendo que um foi quase esmagado pelos demais que vinham por trás. O rapaz caído no chão levantou rapidamente, e ao avanço de um deles, pegou o taco firmemente e acertou um golpe certeiro na cabeça da criatura, criando um barulho que ressoou pela igreja quase como um pequeno sino tocando, fazendo o infectado cair sobre os bancos desarrumados.
- Vocês não cansam?!
Logo com a queda, outro infectado avançou entre os outros de repente, e no susto, o rapaz tentou pegar um novo impulso de baixo para cima, mas dessa vez não foi tão concentrado quanto o primeiro. O golpe acabou sendo muito abaixo, acertando as costelas do infectado, que com o a força do impacto deu alguns passos para trás, fechando o braço no taco, puxando. O rapaz numa tentativa frustrante de recuperar sua arma tentou puxa-lo de volta, mas acabou puxando a criatura junta, e para não ser atingido pelos dentes deles, saltou para trás, caindo novamente ao chão perto de mim. O infectado soltou o taco, que caiu ao seu lado, e avançou alguns passos.
Naquele momento, segundos se tornaram milênios. Lá estava eu, parado, sem mexer um músculo sequer. Minha mente estava borbulhando desde a hora que vi um ser humano entrar por aquela porta. Há poucos segundos eu estava vendo um mundo morto, sem esperança, mas agora... Há mais pessoas vivas! Ele estava ali, na minha frente, bem ali! Precisava fazer algo, precisava ajudá-lo, mas eu não me movia. Aquelas criaturas sedentas de sangue faziam-me querer correr o mais longe possível, não podia enfrenta-las, não iria conseguir.
- Você é fraco...
Essas palavras fracas e confusas vieram a minha mente lentamente, como se uma voz na minha cabeça dissesse aquilo para mim.
- Você deveria ter vergonha de si mesmo...
Dessa vez, as palavras estavam mais fortes, como se alguém realmente estivesse dizendo aquilo para mim. Fiquei assustado. Virei meus olhos ao lado, e vi, em frente à mesa do altar, uma cena pavorosa.
Era eu mesmo... Mas transformado. Podia me ver parado com as mãos nos bolsos, com o rosto faltando vários pedaços, com os olhos meio brancos e a boca escorrendo vermelho. Meu coração parou com aquela cena perturbadora, meus olhos quase saltaram das órbitas, enquanto ela continuava a dizer.
- Pelo amor... Volte pra casa e chore em cima do cadáver do seu tio, talvez lá você ganhe algo a mais que ficar assistindo esse cara morrer.
Ele dizia com um sorriso sádico no rosto. Eu estava definitivamente louco. Toda a tensão e o estresse me deixaram perturbado, a ponto de criar ilusões. Mas aquilo, real ou não, estava certo. Eu estava sendo novamente fraco, novamente um pobre covarde com medo. Uma pessoa ia morrer na minha frente, e eu não fazia nada. “Por quê?” Eu me perguntava. Preciso fazer algo, preciso... Mas o medo... O medo...
Em muitos momentos da vida iremos encontrar situações em que queremos ajudar o mundo inteiro, principalmente pessoas boas, mas não podemos, ou porque não somos fortes o suficiente... Ou porque temos receio de fazer o erro crescer. Sempre tive medo de fazer algo errado sobre o erro, por isso quase nunca agi de forma decidida e corajosa, porque sempre tive receio. Nunca tive a chance de aprender o que era ser corajoso... Mas aquela era a hora. Eu tinha o direito de ser corajoso, pelo menos uma vez, eu precisava, e se o medo me atacasse, o jogaria na frente do inimigo. Isso. Uma epifania, algo que veio do nada. Se o medo entrasse na minha frente, o jogaria na frente deles, com toda a força que ele pode dar, e foi isso que fiz.
Diante da visão daquela ilusão transtornada, eu usei o medo como arma. Ao perceber, o infectado de gravata perto de mim avançou. Foram momentos rápidos, imperceptíveis, velozes...
O sangue espirrou para cima, caindo no chão criando um som de gotas em uma tarde de garoada. O rapaz olhou com o canto dos olhos para trás, e pode ver a cena. Lá estava eu, com lagrimas de medo nos olhos, segurando uma das facas que ainda repousavam em minha cintura com o gume enfiado contra a testa da criatura. O sangue escorria pela lâmina, descendo pelo meu braço. Minhas mãos ficaram roxas pela força que eu segurava a faca. Durante esse momento, o infectado próximo ao rapaz estava pronto para avançar, quando em um movimento de raiva, saquei a pistola apontando firmemente para frente. Era um alvo a pouquíssimos metros, no máximo dois, a um homem alto de distancia, quase a queima-roupa, se já não fosse. Minha mão começou a tremer, mas não havia erro, era um alvo certeiro, como no clube de tiro, eu imaginei.
A bala voou rasgando o vento com um zunido, atingindo em cheio a cabeça deformada da criatura, que caiu dura para trás. Na queda, o braço da criatura caiu sobre o taco, que escapou rolando com força por baixo da mão fria do não-morto, chegando ao pé do rapaz. Ainda sobravam dois de pé, e eles tinham que cair. Ele pegou o taco e se ergueu.
- Valeu cara... Te devo uma.
Ele disse sem se virar para trás, com um tom forte, enquanto apertava as mãos na madeira de sua arma.
Naquele dia, eu conheci o fundo do poço. Um fundo sombrio e frio. Mas em um momento, uma possível escada foi lançada. Não sei se é firme ou não, mas é a única que tenho, e preciso confiar nela.
3 comentários:
caraca velho o melhor capitulo até agora gostei muito desse. Continue postando (Y)
vlw mais uma vez bruno xD
foi foda esse epi
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